Arquivos da categoria: Regime Militar

31 de março: golpe contra Jango completa 52 anos

Brasília – Após o último discurso de João Goulart como presidente na noite do dia 30 de março de 1964, tropas militares e apoiadores civis começaram a se movimentar para sua derrubada. Nas primeiras horas do dia 31 de março, o golpe de Estado começou efetivamente com a saída de tropas de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro, ainda sede do governo federal. Enquanto os insatisfeitos com o governo avançavam (para o que chamariam de “revolução”), Jango tentava articular a resistência junto a militares legalistas e sociedade civil. Confira as principais movimentações daquele dia:

02h30 – Tropas do IV Exército partem de Juiz de Fora (MG)

General Mourão
Creative Commons – CC BY 3.0 - General Mourão

Reprodução / Revista O Cruzeiro

Em Minas Gerais, o general Mourão, comandante do IV Exército decidiu entrar em ação e escreveu no diário dele:“Acendi o cachimbo e pensei: não estou sentindo nada e, no entanto, dentro de poucas horas, deflagrarei um movimento que poderá ser vencido, porque sai de madrugada e terá que parar no meio do caminho”. Entre 3h e 4h, começou a movimentação das tropas  em direção ao Rio de Janeiro. Mourão fez uma nova anotação. “Eu estava de pijama e roupão de seda vermelho. Posso dizer com orgulho de originalidade: creio ter sido o único homem no mundo (pelo menos no Brasil) que desencadeou uma revolução de pijama”.

5h – O golpe avança também por telefone

General Mourão e o deputado Armando Falcão
Creative Commons – CC BY 3.0 - General Mourão e o deputado Armando Falcão

Acervo EBC

Mourão telefonou para o deputado Armando Falcão para informar sobre o movimento das tropas, que por sua vez telefona para o general Castelo Branco e avisa que as tropas já estavam na estrada União-Indústria, ligação entre Juiz de Fora e Petrópolis. Castelo ligou, então, para o irmão do comandante do II Exército e pediu para avisar o general Amaury Kruel que, sem ele, a movimentação “não passaria de uma aventura”. O recado chegou ao quartel-general do II Exército em São Paulo, mas Kruel se mantinha fiel a Goulart.

7h – Castello Branco articula o comando do RJ

Castello Branco
Creative Commons – CC BY 3.0 - Castello Branco

Arquivo Nacional / Agência Nacional

No Rio de Janeiro, o general Antonio Carlos Muricy recebeu a senha de Mourão para se dirigir a Juiz de Fora: “começou a brincadeira”. Avisado sobre a situação, Castelo Branco determinou que o general Antônio Carlos Muricy, em seu próprio automóvel, fosse ao encontro de Mourão e assumisse o comando das tropas. Muricy rumou para Minas no seu Rural Willys, enquanto Castelo  ao telefone tentava conter a marcha dos mineiros. Castelo Branco vai para o Ministério da Guerra e fala com o general Guedes, alegando que “não foi possível fazer nenhuma articulação” no Rio de Janeiro: “A solução é vocês voltarem, porque senão serão massacrados”.

13h – EUA enviam porta-aviões para apoiar os golpistas no Brasil

Porta-aviões dos EUA
Creative Commons – CC BY 3.0 - Porta-aviões dos EUA

Divulgação: O dia que durou 21 anos / Pequi Filmes

O contra-almirante John Chew, vice-diretor de operações navais dos EUA, ordenava ao comandante em chefe da Esquadra do Atlântico o deslocamento de um porta-aviões à frente de uma força-tarefa para a “área oceânica na vizinhanças de Santos, Brasil”

Rui Moreira Lima sobrevoa as tropas de Mourão com seu caça

Em iniciativa individual, o comandante da Base Aérea de Santa Cruz, coronel-aviador Rui Moreira Lima, por conta própria, decolou em um jato de caça. Os voos rasantes assustaram a tropa de Mourão. Sem ordens para atirar, retornou para a Base Aérea. Em depoimento para a Comissão Nacional da Verdade, em 2012, ele relembrou o episódio:

 Assista o vídeo de Rui Moreira aqui

16h Jango tenta articular a resistêcia junto aos militares 

João Goulart em reunião com Peri Bevilacqua
Copyright - João Goulart em reunião com Peri Bevilacqua

Arquivo Nacional / Agência Nacional

Jango convocou o chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, o general Peri Bevilacqua ao Palácio. Bevilacqua apresentou a Jango um documento que expressava a opinião dos chefes dos Estados-Maiores do Exército e da Aeronáutica. O general garantiu que ainda era possível reestabelecer a confiança entre o Presidente da República e as Forças Armadas: uma declaração formal de se opor à deflagração de greves políticas, anunciadas pelo principal sindicato da época, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), ligado a Goulart.

CGT: “vamos decretar a greve”

João Goulart e Clodismidt Riani
Creative Commons – CC BY 3.0 - João Goulart e Clodismidt Riani

Erbes Soares Ferreira / Acervo Maria do Resguardo

Goulart telefonou para o presidente do CGT Clodsmidt Riani e pediu aos sindicalistas que evitassem a decretação de greves. “Presidente, o senhor vai me desculpar, mas o que pode manter um governo agora é só o povo na rua. Nós vamos decretar a greve e está decidido”, respondeu o líder sindical.

18h – JK lança carta em defesa da “discilplina e hierarquia” e faz apelo a Jango

Juscelino Kubitschek e João Goulart
Creative Commons – CC BY 3.0 - Juscelino Kubitschek e João Goulart

Arquivo Nacional

No final da tarde, Juscelino Kubitschek divulgou uma nota afirmando que “a legalidade está onde estão a disciplina e a hierarquia”. Depois, foi conversar com o presidente no Palácio das Laranjeiras. Para evitar o golpe, o ex-presidente propôs a Jango uma solução política: nomear um novo ministério, de caráter conservador, punir os marinheiros e lançar um manifesto de repúdio ao comunismo. Jango não concordou. “Eu não posso fazer isso. Se fizer isso, dou uma demonstração de medo e um homem que tem medo não pode governar o país”, teria dito o presidente.

Carta da Presidência fala de resistência ao Golpe

Comunicado da Presidência
Creative Commons – CC BY 3.0 - Comunicado da Presidência

Erbes Soares Ferreira / Acervo Maria do Resguardo

Jango distribuiu aos repórteres um texto intitulado “Comunicado do Presidente da República”. A nota informava que o ministério da Guerra já havia enviado tropas do I Exército para acabar com a rebelião. O general Jair Dantas Ribeiro, que estava no Hospital se recuperando de uma cirurgia, reassumiu o ministério da Guerra. Fez contatos com o comandante do I Exército, general Armando de Moraes Âncora. A seguir, distribuiu uma nota aos comendantes dos quatro Exércitos declarando que a ordem seria reestabelecida a qualquer preço. Um avião T6 da FAB jogou os dois tipos de panfletos sobre Juiz de Fora

Regimento Sampaio adere ao Golpe

Tropas na proximidade com o RJ
Creative Commons – CC BY 3.0 - Tropas na proximidade com o RJ

Reprodução / Revista O Cruzeiro

O Regimento Sampaio,  I Regimento de Infantaria comandado pelo coronel Raymundo Ferreira de Souza, aproximava-se do que poderiam ser as linhas de combate. Ao chegar em Três Rios (RJ), o comandante do regimento, coronel Raymundo Ferreira de Souza, recebeu um telefonema do marechal Odílio Denys, de quem fora assistente, e mudou de lado:“Eu e toda minha tropa nos solidarizamos com o movimento revolucionário”. Mourão estava em Três Rios. Denys deslocou-se para o Vale do Paraíba onde manteve contatos para obter a adesão das tropas legalistas.

22h – Comandante em SP pede rompimento de Jango com a esquerda

O comandante do II Exército, general Amauri Kruel
Copyright - O comandante do II Exército, general Amauri Kruel

Reprodução / Revista O Cruzeiro

O comandante do II Exército em São Paulo, general Amauri Kruel pediu ao presidente que rompesse com a esquerda. Queria a demissão de Abelardo Jurema do ministério da Justiça e de Darcy Ribeiro da chefia do gabinete Civil e colocasse o CGT na ilegalidade. Jango negou o pedido. “Se essas são as suas condições, eu não as examino. Prefiro ficar com as minhas origens. O senhor que fique com as suas convicções. Ponha as tropas na rua e traia abertamente”. Em um novo contato telefônico, Kruel insiste na proposta mas Jango mantém a negativa.

23h – Kruel passa a apoiar o Golpe

Kruel ordenou o deslocamento das tropas do II Exército e da Força Pública de São Paulo para o Vale do Paraíba no caminho para a Guanabara e divulgou manifesto em que diz ser preciso “salvar a pátria em perigo”. O governador Ildo Meneghetti, refugiado em uma cidade do interior, ordenou, com sucesso, que a Brigada Militar apoiasse a revolta.

Miguel Arraes e Gregório Bezerra são presos em Pernambuco

Prisão do governador de Pernambuco Miguel Arraes
Creative Commons – CC BY 3.0 - Prisão do governador de Pernambuco Miguel Arraes

Reprodução / Revista O Cruzeiro

No comando do IV Exército, o general Justino Alves Bastos, tomou posição ao lado dos golpistas e ordenou a prisão do governador de Pernambuco Miguel Arraes. O governador ainda fez um discurso por meio de um rádio de dentro do Palácio das Princesas, enquanto negociava com os apoiadores do golpe. Ouça:

No Porto de Recife, o início de uma greve foi reprimida pela Marinha. Gregório Bezerra incentivou uma revolta camponesa no sul do Estado. Preso, foi arrastado pelas ruas de Recife em um carro do Exército. Ele contou sobre o episódio em entrevista gravada. O registro foi recuperado e digitalizado pelo Armazém Memória.

 Veja o vídeo de Gregório Bezerra  aqui

Leia e ouça o último discurso de João Goulart aqui

Itália vai julgar agentes da ditadura brasileira

Jornal GGN - Na última sexta-feira (26), a Justiça italiana decidiu que irá julgar separadamente os brasileiros Marco Aurélio da Silva Reis, João Osvaldo Leivas Job, Carlos Alberto Ponzi e Átila Rohrsetzer, agentes da ditadura militar brasileira. Os quatro são acusados de homícidio do ítalo-argentino Lorenzo Ismael Viñas em 1980. Os juízes italianos acataram o pedido da defesa dos brasileiros, que pediam que eles fossem julgados separadamente de outros 33 acusados de participar de crimes nas ditadura da América Latina.

O julgamento dos brasileiros vai começar no dia 9 de maio, na cidade de Roma, e o réus poderão ser condenados à prisão perpétua. O processo Condor começou um ano atrás e acusa outros 33 militares e políticos latino-americanos por crimes contra a humanidade, ao terem participado de assassinatos e sequestros durante os regimes autoritários nas décadas de 70 e 80. A Itália decidiu processá-los porque eles são suspeitos de envolvimento em mortes de cidadões com dupla cidadania.

Enviado por José Carlos Lima

Da RFI

Itália julgará agentes da ditadura militar brasileira em maio

A III Corte de Assis, em Roma, decidiu nesta sexta-feira (26) julgar separadamente os brasileiros Marco Aurélio da Silva Reis, João Osvaldo Leivas Job, Carlos Alberto Ponzi e Átila Rohrsetzer, acusados de homicídio culposo do ítalo-argentino Lorenzo Ismael Viñas, em 1980. Os quatro eram agentes da ditadura militar brasileira à época. A Justiça Italiana debatia se eles deveriam ser julgados ao lado dos outros 33 acusados de participar de crimes nas ditaduras latino-americanas ou em um processo à parte.

Gina Marques, correspondente da RFI Brasil em Roma.

Os juízes acataram os argumentos da defesa dos brasileiros, que pretendiam obter o julgamento em separado. Como o processo Condor foi aberto em fevereiro de 2015 e muitas testemunhas já haviam sido ouvidas, os magistrados decidiram pelo desmembramento da acusação contra os brasileiros. O julgamento deles começará no próximo 9 de maio, em Roma. Os réus poderão ser condenados à prisão perpétua.

O processo Condor começou há um ano, na Itália, e acusa outros 33 militares e políticos latino-americanos por crimes contra a humanidade, ao terem participado de assassinatos e sequestros durante os regimes autoritários em países como Argentina e Brasil nas décadas de 70 e 80. A Itália decidiu processar estes 33 porque eles são suspeitos de envolvimento nas mortes de cidadãos com dupla cidadania, uma delas sendo italiana.

O advogado Giancarlo Maniga, que representa a família Viñas, explicou à RFI Brasil: “As provas reunidas contra os outros 33 acusados já estão em fase avançada. Esta decisão dos juízes era previsível, pois inserir os réus brasileiros no mesmo processo poderia violar o direito de defesa deles.”

Operação Condor

Os quatro acusados brasileiros são defendidos pelos advogados públicos Anixia Torti e Valentina Perrone. “Eticamente, a abertura de outro processo não é a melhor solução, mas deontologicamente fizemos o que deveríamos”, declarou Valentina Perrone.

A audiência pública desta sexta-feira iniciou as 10h, hora local. A corte, formada por cinco juízes, presidida por Evelina Canale, ouviu também a Giulia Barrera, arquivista que testemunhou apresentando documentos sobre a Operação Condor. Ela explicou o período da ditadura político-militar do Brasil e da América do Sul e a ligação com os serviços secretos dos Estado Unidos.

Entre os documentos apresentados por Barrera estava um telegrama ao Departamento de Estado dos Estados Unidos comunicando a adesão do Brasil ao grupo Condor em 1976. A chamada Operação Condor foi uma aliança político-militar durante as ditaduras de 1970 e 1980 entre os vários regimes militares da América do Sul — Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai com a CIA dos Estados Unidos.

Entenda o processo

Em 2005, o Ministério Público italiano apresentou uma primeira lista de indiciados – um total de 140 militares e políticos de toda a América Latina envolvidos na morte de cidadãos com dupla cidadania italiana.

A lista de 140 acabou resultando em 33 processados. Onze brasileiros faziam parte da lista original, mas apenas estes quatro réus ainda estão vivos.

Caso Viñas

Em 1980, os quatro brasileiros tinham cargos de responsabilidade. Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul. Ponzi comandava o Serviço Nacional de Informações (SNI) de Porto Alegre. Rohrsetzer dirigia a Divisão Central de Informações em Porto Alegre e o delegado Silva Reis era diretor estadual do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Rio Grande do Sul. Atualmente Rohrsetzer mora em Florianópolis, Silva Reis em uma praia do litoral gaúcho. Leivas Job e Ponzi vivem em Porto Alegre.

Lorenzo Ismael Viñas foi sequestrado em Uruguaiana na fronteira entre o Brasil e a Argentina em 26 de junho de 1980 e em seguida desapareceu. Ele era militante do grupo Montoneros, de oposição à ditadura da Argentina. Em 12 de março do mesmo ano, outra vítima ítalo-argentina também desapareceu no Brasil. Trata-se de Horacio Campiglia, que foi sequestrado no aeroporto Galeão, no Rio de Janeiro. No entanto, os quatro brasileiros não serão julgados pela morte de Campiglia.

A advogada da família Campiglia, Martina Felicori, falou à RFI Brasil: “Os juízes avaliaram que não existem elementos suficientes que poderiam demonstrar o envolvimento dos quatro brasileiros no caso Campiglia. Talvez porque os réus ocupavam cargos de responsabilidade no Rio Grande do Sul, distante do Rio de Janeiro”.

Na Itália, o réu pode ser processado à revelia, mas ele tem que ser comunicado sobre a acusação para poder nomear um advogado de defesa.

Impunidade para os agentes da ditadura era total, diz Clarice Herzog

As mortes em sequência do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e do metalúrgico Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976, três meses depois, foram para Clarice Herzog, viúva do jornalista, uma demonstração de como a impunidade acobertava as ações criminosas dos agentes da ditadura.

manoel fiel filho“A impunidade era tão grande. eles se sentiam tão poderosos, que podiam mostrar aquela foto do Vlado enforcado com pé no chão e o Fiel Filho enforcado, sentado numa privada. É uma vergonha, porque nem se preocupavam de fazer uma farsa bem-feita, porque a impunidade para eles era total”, disse à Agência Brasil.

O jurista Hélio Bicudo colheu depoimentos de ex-presos da época da ditadura para validar a versão de assassinato praticado por agentes do Estado. “Ninguém que atuava na área poderia acreditar que aquilo foi suicídio. Sabia-se, como foi no caso do Herzog, que era uma morte praticada pela polícia política”, disse.

Bicudo destaca que os dois episódios, as mortes de Herzog e de Fiel Filho, foram importantes para reconstrução da democracia no Brasil. “Essas duas mortes mostravam que a atuação dos agentes da repressão se manifestava não só na classe média, mas também na classe operária, como é o caso do Manoel. Foi uma morte que trouxe um anseio de mobilização para a sociedade, de necessidade de mudança”, afirmou.

*Edição: Aécio Amado.

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

A morte do jornalista Vladimir Herzog completou 40 anos no último domingo, 25. Ele era diretor do telejornal ‘Hora da Notícia’, veiculado pela TV Cultura de São Paulo. Segundo foi reconhecido depois, Vlado foi morto sob tortura pelos militares após ser detido nas dependências do Destacamento de Operação de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOPS/SP) . Ele deixou viúva a esposa Clarice, com os dois filhos do casal, Ivo, na época com 9 anos, e André, com 7.

A comoção causada pela morte do jornalista reaglutinou diversos setores da sociedade e provocou a primeira reação popular contra os excessos do regime militar. Por esse motivo, a data de morte foi escolhida para celebrar a democracia no país, sendo considerada o “Dia da Democracia”.

Um marco desse processo foi o ato ecumêmico realizado na Catedral da Sé. Realizado cerca de uma semana após a morte de Herzog, o ato, que teve a presença do rabino Henry Sobel e do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, reuniu milhares de pessoas para homenagear o jornalista, em um protesto silencioso contra o regime.

No vídeo a seguir, o jornalista Audálio Dantas, autor da biografia “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, conta como se deu o processo da prisão de Vlado ao ato Ecumênico na Sé:

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

Circunstâncias da morte
Divulgada como suicídio em comunicado do II Exército na época, com a utilização de uma foto forjada, a versão das circustância em que Valdo morreu – também mantida pelo Inquérito Policial Militar (IPM) realizado naquele ano – foi desmontada. Com uma ação declaratória realizada no ano seguinte, Clarice Herzog conseguiu, em outubro de 1978, a condenação da União pela prisão arbitrária, tortura e morte de Vladimir.

Em 2013, como parte dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a família conseguiu a retificação do atestado de óbito onde consta que a morte do jornalista se deu em função de “lesões e maus tratos sofridos durante os interrogatórios em dependência do II Exército (DOI-CODI)”.

O relatório final da Comissão aponta “não existir mais qualquer dúvida acerca das circunstâncias de Vladimir Herzog, detido ilegalmente, torturado e assassinado por agentes do Estado nas dependências do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, em outubro de 1975″.

Em setembro de 2014, a equipe de peritos da Comissão concluiu laudo pericial indireto sobre a morte do jornalista, que constatou a evidência de duas marcas distintas na região cervical, determinante para os peritos afirmarem que:

“Vladimir Herzog foi inicialmente estrangulado, provavelmente com a cinta citada pelo perito criminal e, em ato contínuo, foi montado um sistema de forca uma das extremidades foi fixada a grade metálica de proteção da janela e, a outra, envolvida ao redor do pescoço de Vladimir Herzog, por meio de uma laçada móvel. Após, o corpo foi colocado em suspensão incompleta de forma a simular um enforcamento”.

Segundo o relatório da Comissão da Verdade, Vlado foi morto pela “Operação Radar”, que tinha o objetivo de localizar e desarticular a infraestrutura do Partido Comunista do Brasil (PCB) em todo o território nacional e foi responsável pela morte de 20 militantes do partido entre 1974 e 1976, 11 deles ainda desaparecidos.

vlado-especial-ebc
Vlado foi morto nas dependências do DOI-Codi (Imagem: Arquivo Pessoal)

Prisão
Vladimir Herzog, então diretor do telejornal Hora da Notícia, foi procurado por agentes da repressão em casa e no trabalho no dia 24 de outubro de 1975. Preocupada com a estranha visita, a esposa Clarice se dirigiu à TV Cultura onde Herzog acompanhava o fechamento e veiculação do telejornal que dirigia. Dois agentes o esperavam do lado de fora. Com intervenção de colegas e da direção da TV Cultura, Herzog não foi levado naquele dia e se prontificou a se apresentar na manhã seguinte aos militares na rua Thomás Carvalhal, 1030, sede do DOI. No dia 25, ele se apresentou conforme o combinado e ficou detido para interrogatórios, de onde não saiu com vida.

Antes do conhecimento da morte, os colegas de Vlado souberam da detenção por meio de uma nota do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, então presidido pelo alagoano Audálio Dantas. Além de anunciar a prisão de Vlado, a nota publicada no dia 26 em alguns jornais trazia o nome de mais 10 jornalistas que estavam em poder dos militares, todos presos naquele mês. Em uma reportagem completa sobre o caso publicada um mês depois no Jornal Ex, Mylton Severiano, Narciso Kalili e Palmério Dória, editores do veículo e colegas de Herzog traçaram a seguinte descrição sobre ele.

“O Vlado chegava sempre no meio da tarde, aí pelas 4 e meia. Naquela época ele era uma espécie de secretário do telejornal. Era de chegar trabalhando: pegava a pauta, lia imediatamente com uma atitude muito sua, a de coçar alguns cabelos do alto da cabeça, de pé, e o papel na outra mão. Sua função era editar e botar no ar o telejornal que nós fazíamos, com uma equipe de mais de 20 pessoas. Ou seja, às 21 horas em ponto, com script na mão, ele acompanhava da técnica os 30 minutos de “Hora da Notícia”, como um responsável e representante da redação, ali na hora, no estúdio”.

No dia seguinte chegava a nota oficial do II Exército, informando a morte do jornalista e apontando que ele teria se suicidado. O primeiro questionamento a essa versão partiu do sindicato em São Paulo. Além de informar que Vlado tinha sido procurado por agentes de segurança no dia 24 por volta das 21h30 e se apresentado espontaneamente no dia seguinte, a nota apontava a responsabilidade dos agentes pela morte de Vlado e questionava o modo arbitrário pelo qual ocorriam as prisões de jornalistas.

vlado-vida
Especial resgatou a infância e a carreira do jornalista (Imagem: Reprodução/EBC)

“Não obstante as informações oficiais fornecidas pelo II Exército, em nota distribuída à imprensa, o Sindicato dos Jornalistas deseja notar que, perante a lei, a autoridade é sempre responsável pela integridade física das pessoas que coloca sob sua guarda. O Sindicato dos Jornalistas, que ainda aguarda esclarecimentos necessários e completos, denuncia e reclama das autoridades um fim a esta situação em que jornalistas profissionais, no pleno, claro e público exercício de sua profissão, cidadãos com trabalho regular e residência conhecida, permanecem sujeitos ao arbítrio dos orgãos de Segurança, que os levam de suas casas, ou de seus locais de trabalho, sempre a pretexto de que irão apenas prestar depoimento, e os mantém presos, incomunicáveis, sem assistência da família e jurídica, por vários dias e até por várias semanas em flagrante desrespeito à lei”.

Vida de Herzog
Vlado Herzog nasceu em Osijek na Iugoslávia em 27 de junho de 1937 e se mudou para o Brasil com a família para fugir da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Naturalizado brasileiro, mudou seu nome para Vladimir.

Assista à vida de Herzog narrada por Audálio Dantas:

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

Vlado se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo em 1959 e, desde então, exerceu a atividade jornalística em diferentes veículos de imprensa e também no cinema. Ele iniciou a carreira jornalística como repórter do jornal O Estado e S. Paulo e participou do grupo responsável pela instalação da sucursal de Brasília do jornal. Em 1962, conheceu a estudante de ciências sociais Clarice Chaves, com quem iria se casar em fevereiro de 1964, cerca de dois meses do golpe militar.

Em 1963, filmou no Rio de Janeiro o documentário “Marimbás” , primeiro filme brasileiro a utilizar som direto. Em 1965, gerenciou a produção do curta-metragem “Subterrâneos do Futebol”, de Maurice Capovilla; e o início do roteiro do filme “Doramundo”, que só viria a ser filmado depois da morte dele por João Batista de Andrade. O mesmo cineasta homenageou Vlado com um documentário 30 anos depois.

Entre as primeiras consequências do regime militar na vida do casal, está a ida para Londres em 1965 onde Vlado foi contratado pela BBC. Na Inglaterra, nasceram os filhos do casal, Ivo e André. Ele voltou ao Brasil em 1968 e passa a atuar como editor da revista Visão. Em 1972, trabalhou pela primeira vez na TV Cultura.

Volks denunciada por colaborar com a ditadura militar

Dossiê com provas será entregue amanhã ao Ministério Público Federal. VW é primeira empresa denunciada. Haverá outras. Fórum de trabalhadores quer reparação social.

Assista o vídeo com a reportagem aqui

Captura de Tela 2015-10-19 às 10.48.36

Captura de Tela 2015-10-19 às 10.48.57Captura de Tela 2015-10-19 às 10.47.47

 

40 anos da morte de Vlado: um depoimento de Clarice Herzog

Entrevista exclusiva a Paulo Markun, no ‘SP, Brasil’ vai ao ar na próxima segunda-feira, às 19h (canal 7 da NET e 61.4 da TV Digital Aberta). Conversa resgata aspectos importantes dos “Anos de Chumbo”

Quis o destino que justamente na semana em que as forças democráticas preparam homenagens ao jornalista Vladimir Herzog, corresse nas redações a morte do coronel Brilhante Ustra, chefe da repressão na ditadura militar.

As chagas deixadas por essa ditadura e detalhes dos momentos finais da vida de Vlado irão ao ar na próxima segunda-feira, às 19h, na voz da viúva do jornalista, Clarice Herzog.

Cabe acentuar a causa mortis de (Carlos Alberto) Ustra, o coronel torturador: falência múltipla de órgãos decorrentes de uma pneumonia, na quinta-feira, 15. Ele comandou o Departamento de Informações do 2º Exército, o temido DOI-Codi, em cujas dependências – segundo o livro Brasil: Nunca Mais – centenas de pessoas foram torturadas. Mais: sob o comando direto de Ustra, ao menos 45 brasileiros foram torturados e assassinados. São 45 histórias brutalmente interrompidas num momento em que o Estado Brasileiro calou boa parte da sociedade civil.

clarice-herozogClarice Herzog conversou com Paulo Markun (Imagem: Reprodução/TV Câmara SP)

Pois a farsa que o DOI-Codi tentou imputar ao grande jornalista, então diretor da TV Cultura e que compareceu para prestar depoimentos nas instalações do 2º Exército, há exatas quatro décadas, foi a repugnante versão de suicídio. A Comissão da Verdade desmontou a falsidade de um laudo técnico elaborado na calada da noite. Somaram-se à verdadeira perícia depoimentos de jornalistas presos com Vlado. Ele foi morto numa terrível sessão de tortura e maus tratos.

Meu grande amigo jornalista e presidente do sindicato da categoria em São Paulo nos “Anos de Chumbo”, Audálio Dantas, contou detalhes dessa história macabra no livro As duas guerras de Vlado. Por sinal, Audálio revelou, com rara sensibilidade, como o menino Herzog e sua família sobreviveram à perseguição nazista na Europa. Com cenas dignas de “A vida é bela”, o garoto driblou botas e rifles, desembarcou com os pais na cidade de Santos (SP), construiu uma vida saudável aqui no Brasil e acabou morto nas mãos de torturadores a serviço da Ditadura Militar.

“Se as forças armadas reconhecessem o que realmente foi feito, teríamos mais credibilidade neste país”, desabafa Clarice Herzog, no emocionante relato feito ao jornalista Paulo Markun. Em sua entrevista, a mulher forte, corajosa e decidida conta que a família insistirá na Justiça para que o Exército reconheça a farsa montada.

Confira trecho da entrevista de Clarice Herzog ao ‘SP, Brasil’ aqui

Vítimas da ditadura militar: O amor além da figura do Hospício

tia_e_eu.png

Com ela aprendi muitas coisas. Uma delas foi que eu poderia escutar, ajudar e aconselhar os outros .

O seu jeito diferente não me assustava. Nem mesmo seus gritos e frases repetitivas tais como:

-“Eu não sou subversiva! Não me prendam! “

Foi o que fez a ditadura militar na cabeça dela. Maldito período de repressão , capaz de

atormentar mentes, de destruir e desencorajar muitos viventes.

Ela era minha tia, me tinha muito amor e isso superava qualquer problema… era o bastante.

Me tornei sua principal amiga. Comecei  logo cedo a ouvi-la.

Eram muitas histórias de sofrimento.
.
Vozes que iam e vinham, dias e meses marcados por internações no

hospício.

E eu ouvia atentamente , ouvia como uma criança que quer e não têm como ajudar,

ouvia ainda bem menina os seus lamentos. Porém, uma frase ficou na minha memória, era

uma súplica:

-“Eles misturam todo mundo. Há alguns que me queimam, que me agridem. Isso tem que

acabar!!!”

O que me atormentava mais era saber que a qualquer hora ela voltaria para aquele terrível

lugar .

E sempre me contavam histórias do tipo: ‘‘Sua tia foi viajar”

Era a reposta que eu tinha quando percebia a sua ausência

Vivemos muitos anos em sintonia, com muito amor e compreensão. Um pouco antes da

sua derradeira viagem, arrisquei fazer uma pergunta :
“ Porque eu sempre fui sua

sobrinha preferida ? “ Ao que ela rapidamente me respondeu :

- “ Você foi a única criança que se aproximou de mim, que me deu ouvidos e atenção”

Senti-me importante e muito especial.

Hoje fico imaginando ela viva comemorando o 18 de maio no meio dos movimentos de luta antimanicomial.

Onde ela estiver estará feliz.

Por Cristina Nobre (Paraíba) (Foto: Cristina Nobre e sua tia)

‘Ustra é o único declarado judicialmente torturador’, diz militante

Maria Amélia Teles, a Amelinha, presa e torturada em 1972 no DOI-CODI em São Paulo, afirma que coronel da repressão deveria ter sido condenado por crimes de lesa humanidade

Ustra. Foto: Agência Brasil

A militante Maria Amélia Teles, a Amelinha, presa e torturada nos anos 70 nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, disse que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – morto nesta quinta-feira, 15, em Brasília, vítima de câncer e complicações cardíacas – é o único agente da repressão instalada no País no período entre 1964 e 1985 ‘judicialmente declarado torturador’. “Ustra foi declarado torturador pelo Estado brasileiro”, afirma Amelinha.

“Alías, o único torturador judicialmente declarado torturador.” Em 1972, Amelinha, seu marido, César Teles, militante do Partido Comunista do Brasil, e a irmã Criméia de Almeida foram capturados pelas forças de repressão e torturados no DOI-CODI, no famoso endereço da rua Tutoia, em São Paulo.

Os filhos de Amelinha, então com 4 anos e 5 anos, ficaram em poder dos militares. Nesta quinta-feira, 15, ao comentar a morte de Ustra, Amelinha disse.”A sentença que declarou Ustra torturador foi transitada em julgado. o que significa que não mais cabia recurso. Com certeza é muito pouco para um militar que sequestrou, torturou , matou, deu versões falsas sobre as mortes dos militantes e ainda ocultou cadáveres. É pouco, ele deveria ser condenado criminalmente pelos crimes de lesa humanidade cometidos por ele, todos eles imprescritíveis. Ele vai sem esclarecer os bem mais de meia centena de assassinados por ele ou a mando dele.”

Major Curió confessa crimes na ditadura

Militar afirma ter matado dois prisioneiros no Araguaia

Rio – Em dez horas de depoimento inédito à Justiça Federal na quarta-feira, Sebastião Rodrigues de Moura, 77 anos, o Major Curió, revelou que matou dois prisioneiros da Guerrilha do Araguaia no início da década de 70, durante o regime militar. O militar ainda indicou onde estão enterrados os corpos de dois militantes, até hoje não localizados pelos grupos de trabalho nas expedições que se iniciaram nos anos 90.

Em depoimento à Justiça, Curió indicou a localização dos corpos

Foto: Reprodução Internet

A audiência em segredo de Justiça ocorreu na 1ª Vara Federal de Brasília, sob comando da juíza Solange Salgado, que coordena o inquérito aberto pelo Ministério Público Federal. A audiência, em segredo de Justiça na 1ª Vara Federal de Brasília, foi marcada por momentos tensos. Curió só apareceu à força, conduzido no camburão da Polícia Federal.

Na presença de advogados e parentes de vítimas, o militar, que era capitão à época, mas tido como o principal algoz da Guerrilha do Araguaia, confessou ter matado os guerrilheiros Antônio Theodoro Castro, codinome Raul, e Cilon Cunha Brun, o Simão. Revelou que à ocasião ordenou a um capataz enterrar os corpos e indicou à juíza a localização atual. No depoimento, Curió alegou que a dupla tentou fugir e foi abatida a tiros – ou seja, na sua tese, não houve execução. Curió também relatou que sempre cumpria ordens do superior Leo Frederico Cinelli, então tenente-coronel do Centro de Informações do Exército, o temido CIE. Cinelli é vivo e mora em Brasília.

Embora o militar esteja amparado pela anistia, as revelações do depoimento vão nortear várias decisões da Justiça a respeito das buscas de desaparecidos e desencadear mudanças editoriais nas obras já publicadas até agora. Durante a audiência não houve deferência da juíza e procuradores ao militar, ao qual se dirigiram o tempo todo como ‘Seu Sebastião’.

Curió foi o mais temido militar atuante na região do Araguaia durante o regime. Era capitão das tropas que aniquilaram a guerrilha. Ganhou fama desde então, e ascendeu na hierarquia militar chegando às patentes de major e tenente-coronel. Com esta patente controlou na década de 80 o garimpo de Serra Pelada (PA) e fundou uma cidade que leva o seu nome, Curionópolis (PA).

Morre Brilhante Ustra, ex-chefe do Doi-Codi

Coronel reformado tinha 83 anos e se tratava de um câncer

 

O coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra - Ailton de Freitas / 10-05-2013 / Agência O Globo

 

BRASÍLIA – O coronel reformado Carlos Brilhante Ustra, 83 anos, que chefiou o Doi-Codi do 2º Exército, morreu na madrugada desta quinta-feira. Ele estava internado na UTI do Hospital Santa Helena, em Brasília, em estado gravíssimo. Ustra teve complicações a partir de um câncer de próstata, que provocou uma metástase. Ele também foi acometido de forte pneumonia. O corpo de Ustra será velado a partir das 16h de hoje, na capela do Hospital das Forças Armadas. Ele será cremado na sexta-feira.

 

O coronel reformado é apontado por dezenas de perseguidos políticos e familiares de vítimas do regime militar como responsável pelas perseguições, tortura e morte de opositores do golpe de 64. O Dossiê Ditadura, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, relaciona o coronel com 60 casos de mortes e desaparecimentos em São Paulo. A Arquidiocese de São Paulo, por meio do projeto Brasil Nunca Mais, denunciou mais de 500 casos de tortura cometidos dentro das dependências do Doi-Codi no período em que Ustra era o comandante, de 1970 a 1974.

 

Ustra era conhecido nos porões da ditadura como “Dr. Tibiriçá”, ele era o único militar brasileiro declarado torturador pela Justiça.

 

Em agosto, o Ministério Público Federal (MPF), ofereceu denúncia contra Ustra. Ele é apontado como responsável pela morte do militante comunista Carlos Nicolau Danielli, sequestrado e torturado nas dependências do Destacamento de Operações e Informações do (DOI), em São Paulo, em dezembro de 1972.

 

MORTE TRAZ SENTIMENTOS OPOSTOS

 

O coronel da reserva Pedro Ivo Moézia, que foi subordinado de Ustra no Doi-Codi, lamentou a morte de seu superior.

 

— Foi uma grande perda para o Brasil e para o Exército. O Ustra era o único grande herói nacional vivo. Ele cumpriu missões difíceis. Foi um dos principais responsáveis por termos acabado com o terrorismo e a subversão, mas que, infelizmente, não obteve o valor devido do Exército. Como amigo e subordinado, sinto muito. Foi um injustiçado. Um símbolo da nossa resistência e que toda essa estrutura de governo, do PT, se debruçou para acabar com ele — disse Moézia.

 

— Mesmo a morte de uma pessoa que cometeu as maiores atrocidades é de se lamentar. Foi tirado dele, nessa existência, a oportunidade de se arrepender e confessar seu papel perverso na máquina estatal de tortura de seres humanos. Vamos ficar com essa lacuna na reconstituição de nossa história recente — disse o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ).

 

— Perdemos hoje um símbolo da luta pela democracia. O coronel Ustra esteve na linha de frente no combate a guerrilheiros formados em Cuba e financiados pela União Soviética para aqui impor a ditadura do proletariado. Devemos a ele parte da liberdade que ainda gozamos no Brasil — lamentou o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ).

 

Já o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, criticou o fato dele não ter sido punido em vida:

 

- O Supremo Tribunal Federal aguarda que todos morram antes de decidir definitivamente sobre a validade da Lei da Anistia e sobre a obrigatoriedade da execução da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que estabelece o dever de responsabilização dos crimes da ditadura. A Lei da Anistia é a verdadeira lei da vergonha e da impunidade no Brasil – disse Abrão.

 

A família de Ustra registrou a morte do militar nas redes sociais. São vários os comentários elogiosos de internautas: “Torturador de vermelho. Vai fazer falta”; “obrigado por proteger o Brasil do inimigo comunista em um passado recente”; “exemplar combatente das forças patrióticas”; “um excelente brasileiro que ajudou a livrar o país da corja comunista”; “morreram ou mataram?”.