Arquivos da categoria: Comissão Nacional da Verdade

CEV-Rio lança novo site e seu Relatório Final

A Comissão da Verdade do Rio lançou, no último dia 10 de dezembro, seu novo site, com notícias, clipping e links úteis, dentre outras coisas.

Nesse novo site, a CEV-Rio disponibiliza o seu Relatório Final, um material denso em que se pode encontrar relatos, informações históricas, dentre outros dados. Há também relatórios das comissões municipais, textos dos pequisadores colaboradores e o material produzido pelas pesquisas contempladas no edital 38 da Faperj, além de clipping e links úteis. Além disso, a CEV-Rio disponibiliza o “Mapa da Repressão”, um mapa interativo com os locais de prisão e tortura no Estado do Rio de Janeiro utilizados pelo regime ditatorial militar (1964-1985).

Para acessar o novo site da CEV-Rio, clique aqui

Baixa o Relatório Final da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro aqui

O documentário Militares da Democracia, de Silvio Tendler

Silvio Tendler dirige “Militares da Democracia”

Eles lutaram pela Constituição, pela legalidade e contra o golpe de 1964, mas a sociedade brasileira pouco ou nada sabe a respeito dos oficiais que, até hoje, ainda buscam justiça e reconhecimento na história do país.

O documentário “Militares da Democracia” resgata, através de depoimentos e registros de arquivos, as memórias repudiadas, sufocadas e despercebidas dos militares perseguidos, cassados, torturados e mortos, por defenderem a ordem constitucional e uma sociedade livre e democrática.

O cineasta Silvio Tendler mescla fatos documentais e ficcionais sobre o período da ditadura militar no país. A narrativa destaca a participação dos militares que lutaram pela democracia, mas que ainda não são conhecidos pelas novas gerações.

Com produção de Ana Rosa Tendler e locução de Eduardo Tornaghi, o filme  retoma o percurso de vários grupos de militares que muito antes do golpe de 1964 já vinham se organizando por novos direitos, melhores condições de trabalho, e na defesa de uma sociedade melhor. E como, a partir de 1964, esses distintos grupos passaram a ser tratados, sofrendo represálias, como a perda do direito de usar a farda, de seus direitos trabalhistas, assim como foram impedidos de exercer suas atividades profissionais. Inédito. 88 min.

Ano: 2014. Gênero: documentário. Direção: Silvio Tendler. Produção: Ana Rosa Tendler. Locução: Eduardo Tornaghi.

Classificação indicativa: 12 anos

Assista aqui o documentário Militares da democracia

Comissão conclui que CSN ajudou a repressão na ditadura

Relatório da Comissão da Verdade acusa empresa de ter demitido trabalhadores e espionado moradores

Rio - A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, contribuiu para a política de repressão na ditadura militar, perseguindo e demitindo funcionários por suas convicções ideológicas. E ainda espionou moradores que não tinham ligação direta com a empresa.

É o que conclui o relatório da Comissão da Verdade Dom Waldyr Calheiros, com 577 páginas, entregue ontem na Câmara Municipal à representantes do Centro de Memória da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ato de entrega do relatório oficial da Comissão da Verdade lotou a Câmara de Volta Redonda

Foto: Francisco Edson Alves / Agência O Dia

O documento sugere que a empresa, torne público “milhares de páginas de espionagens de cidadãos”, da antiga Assessoria de Segurança e Informação (ASI) e do Departamento de Segurança da Usina (DSU), órgãos da CSN ligados, segundo evidências, ao SNI (Serviço Nacional de Informações).

A CSN informou que a empresa ainda não teve acesso ao relatório, mas garantiu que “disponibilizou todos os arquivos solicitados”.

“A CSN, além de demitir 77 sindicalistas que foram presos e torturados, sem que houvesse condenação deles em IPM (Inquérito Policial Militar), também dispensou, por terem participado de manifestações contra o Golpe de 64, outros 113 trabalhadores”, revelou Edgard Bedê, historiador e relator, que se debruçou sobre 14 casos de torturas e mortes provocadas pelo então 1º Batalhão de Infantaria Blindado (BIB).

O relatório tem ainda outras 20 recomendações, entre elas, que William Fernandes Leite, 22 anos, Valmir Freitas Monteiro, 27 , e Carlos Augusto Barroso, 19, assassinados pelo Exército na histórica greve de 1988, sejam incluídos na lista de mortos da ditadura. Emocionados, parentes deles e de outras vítimas, além de sobreviventes das torturas, participaram do ato.

“O MPF (Ministério Público Federal) vai analisar o relatório para responsabilizar civil e criminalmente violadores identificados”, adiantou o procurador da República, Júlio Araújo Júnior.

Parentes dos metalúrgicos mortos se emocionam

Irmã e filha, respectivamente, de Valmir Freitas Monteiro, Adriana Monteiro,  39, e Aline Monteiro, 28, choraram muito durante o ato de entrega do relatório. “Estamos felizes porque sabemos que a morte dele não foi em vão. Por meio dela muitas verdades já vieram e virão à tona, fazendo com que injustiças sejam reparadas”, disse Aline, que só tinha um ano quando Valmir foi assassinado pelo Exército na Usina Presidente Vargas. “Os transtornos na família foram sucessivos. Minha mãe, por exemplo, se entregou e morreu no alcoolismo”, lembra.

A psicóloga Margareth Fernandes Leite, irmã de William Fernandes Leite, também não conteve as lágrimas ao reviver a história da morte do rapaz. “O trabalho da comissão foi exemplar e corrige anos e anos de descaso das autoridades para com a mortes dos metalúrgicos. Espero que a barbaridade do dia 9 de novembro de 1988 jamais seja esquecida”, disse Margareth. Rita Barroso, irmã de Carlos Augusto Barroso, também acompanhou em silêncio a audiência na Câmara. “Ainda é muito doloroso. Parece que a tragédia foi ontem”, murmurou com uma amiga.

Presos e torturados por dois meses, só porque pertencia ao grupo Juventude Operária Católica (JUC), taxado pelo Exército de subversivo, Francisco Assunção, de 70 anos, e Arny Amorim da Silva, 72, relembraram os momentos de horror nos porões do 1º BIB de Barra Mansa. Ambos levaram choques nas genitálias e língua, apanharam por mais de dez horas em paus-de-araras, quase morreram asfixiados em latões d`água e levaram “telefones” (tapas simultâneos nos ouvidos).

“A dor física passa, mas a psicológica, jamais. Até hoje os gritos de horror dos torturados ainda me assombram”, contou Francisco, que ficou dois meses dentro de uma cela escura, apelidada pelos militares de “submarino”. “Só tinha uma pequena abertura no teto, tipo uma escotilha. Só sabíamos de se era noite ou dia através dos cantos dos pássaros ao anoitecer”, lembra Francisco. “Num dos dias, nua sobre a mesa de torturas levando choques seguidos, apanhei por dez horas seguidas”, detalhou Arny, que tinha sido presa por defender empregadas domésticas de abusos sexuais e exploração trabalhista.

“Casos suspeitos” serão novamente investigados

O  relatório também apresenta detalhes de um dos episódios que mais marcaram a repressão no Sul Fluminense: as torturas impostas a 15 Soldados no BIB (Batalhão de Infantaria Blindada), então sediado em Barra Mansa. Quatro deles foram torturados até a morte  Geomar Ribeiro da Silva, Juarez Monção Virote, Wanderley de Oliveira e Roberto Vicente da Silva. Todos tinham 19 anos e foram detidos por suspeitas, jamais provadas, de que usavam maconha.

Constam inda no relatório, detalhes da greve de 1988, que culminou coma morte dos três metalúrgicos. O relatório trata ainda como “casos suspeitos” e sugere a reabertura de investigações, a explosão do Memorial Nove de Novembro, em 1989, e a morte do prefeito morte do prefeito Juarez Antunes, 21 dias após sua posse, em fevereiro de 1989, num acidente automobilístico.

“Depoimentos contundentes de um capitão da Força Especial do Exército, obtidos pela comissão, processado por suposto roubo de explosivos, indicam que militares de alta patente mandaram explodir o memorial”, comentou Bedê.

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

A morte do jornalista Vladimir Herzog completou 40 anos no último domingo, 25. Ele era diretor do telejornal ‘Hora da Notícia’, veiculado pela TV Cultura de São Paulo. Segundo foi reconhecido depois, Vlado foi morto sob tortura pelos militares após ser detido nas dependências do Destacamento de Operação de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOPS/SP) . Ele deixou viúva a esposa Clarice, com os dois filhos do casal, Ivo, na época com 9 anos, e André, com 7.

A comoção causada pela morte do jornalista reaglutinou diversos setores da sociedade e provocou a primeira reação popular contra os excessos do regime militar. Por esse motivo, a data de morte foi escolhida para celebrar a democracia no país, sendo considerada o “Dia da Democracia”.

Um marco desse processo foi o ato ecumêmico realizado na Catedral da Sé. Realizado cerca de uma semana após a morte de Herzog, o ato, que teve a presença do rabino Henry Sobel e do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, reuniu milhares de pessoas para homenagear o jornalista, em um protesto silencioso contra o regime.

No vídeo a seguir, o jornalista Audálio Dantas, autor da biografia “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, conta como se deu o processo da prisão de Vlado ao ato Ecumênico na Sé:

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

Circunstâncias da morte
Divulgada como suicídio em comunicado do II Exército na época, com a utilização de uma foto forjada, a versão das circustância em que Valdo morreu – também mantida pelo Inquérito Policial Militar (IPM) realizado naquele ano – foi desmontada. Com uma ação declaratória realizada no ano seguinte, Clarice Herzog conseguiu, em outubro de 1978, a condenação da União pela prisão arbitrária, tortura e morte de Vladimir.

Em 2013, como parte dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a família conseguiu a retificação do atestado de óbito onde consta que a morte do jornalista se deu em função de “lesões e maus tratos sofridos durante os interrogatórios em dependência do II Exército (DOI-CODI)”.

O relatório final da Comissão aponta “não existir mais qualquer dúvida acerca das circunstâncias de Vladimir Herzog, detido ilegalmente, torturado e assassinado por agentes do Estado nas dependências do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, em outubro de 1975″.

Em setembro de 2014, a equipe de peritos da Comissão concluiu laudo pericial indireto sobre a morte do jornalista, que constatou a evidência de duas marcas distintas na região cervical, determinante para os peritos afirmarem que:

“Vladimir Herzog foi inicialmente estrangulado, provavelmente com a cinta citada pelo perito criminal e, em ato contínuo, foi montado um sistema de forca uma das extremidades foi fixada a grade metálica de proteção da janela e, a outra, envolvida ao redor do pescoço de Vladimir Herzog, por meio de uma laçada móvel. Após, o corpo foi colocado em suspensão incompleta de forma a simular um enforcamento”.

Segundo o relatório da Comissão da Verdade, Vlado foi morto pela “Operação Radar”, que tinha o objetivo de localizar e desarticular a infraestrutura do Partido Comunista do Brasil (PCB) em todo o território nacional e foi responsável pela morte de 20 militantes do partido entre 1974 e 1976, 11 deles ainda desaparecidos.

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Vlado foi morto nas dependências do DOI-Codi (Imagem: Arquivo Pessoal)

Prisão
Vladimir Herzog, então diretor do telejornal Hora da Notícia, foi procurado por agentes da repressão em casa e no trabalho no dia 24 de outubro de 1975. Preocupada com a estranha visita, a esposa Clarice se dirigiu à TV Cultura onde Herzog acompanhava o fechamento e veiculação do telejornal que dirigia. Dois agentes o esperavam do lado de fora. Com intervenção de colegas e da direção da TV Cultura, Herzog não foi levado naquele dia e se prontificou a se apresentar na manhã seguinte aos militares na rua Thomás Carvalhal, 1030, sede do DOI. No dia 25, ele se apresentou conforme o combinado e ficou detido para interrogatórios, de onde não saiu com vida.

Antes do conhecimento da morte, os colegas de Vlado souberam da detenção por meio de uma nota do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, então presidido pelo alagoano Audálio Dantas. Além de anunciar a prisão de Vlado, a nota publicada no dia 26 em alguns jornais trazia o nome de mais 10 jornalistas que estavam em poder dos militares, todos presos naquele mês. Em uma reportagem completa sobre o caso publicada um mês depois no Jornal Ex, Mylton Severiano, Narciso Kalili e Palmério Dória, editores do veículo e colegas de Herzog traçaram a seguinte descrição sobre ele.

“O Vlado chegava sempre no meio da tarde, aí pelas 4 e meia. Naquela época ele era uma espécie de secretário do telejornal. Era de chegar trabalhando: pegava a pauta, lia imediatamente com uma atitude muito sua, a de coçar alguns cabelos do alto da cabeça, de pé, e o papel na outra mão. Sua função era editar e botar no ar o telejornal que nós fazíamos, com uma equipe de mais de 20 pessoas. Ou seja, às 21 horas em ponto, com script na mão, ele acompanhava da técnica os 30 minutos de “Hora da Notícia”, como um responsável e representante da redação, ali na hora, no estúdio”.

No dia seguinte chegava a nota oficial do II Exército, informando a morte do jornalista e apontando que ele teria se suicidado. O primeiro questionamento a essa versão partiu do sindicato em São Paulo. Além de informar que Vlado tinha sido procurado por agentes de segurança no dia 24 por volta das 21h30 e se apresentado espontaneamente no dia seguinte, a nota apontava a responsabilidade dos agentes pela morte de Vlado e questionava o modo arbitrário pelo qual ocorriam as prisões de jornalistas.

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Especial resgatou a infância e a carreira do jornalista (Imagem: Reprodução/EBC)

“Não obstante as informações oficiais fornecidas pelo II Exército, em nota distribuída à imprensa, o Sindicato dos Jornalistas deseja notar que, perante a lei, a autoridade é sempre responsável pela integridade física das pessoas que coloca sob sua guarda. O Sindicato dos Jornalistas, que ainda aguarda esclarecimentos necessários e completos, denuncia e reclama das autoridades um fim a esta situação em que jornalistas profissionais, no pleno, claro e público exercício de sua profissão, cidadãos com trabalho regular e residência conhecida, permanecem sujeitos ao arbítrio dos orgãos de Segurança, que os levam de suas casas, ou de seus locais de trabalho, sempre a pretexto de que irão apenas prestar depoimento, e os mantém presos, incomunicáveis, sem assistência da família e jurídica, por vários dias e até por várias semanas em flagrante desrespeito à lei”.

Vida de Herzog
Vlado Herzog nasceu em Osijek na Iugoslávia em 27 de junho de 1937 e se mudou para o Brasil com a família para fugir da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Naturalizado brasileiro, mudou seu nome para Vladimir.

Assista à vida de Herzog narrada por Audálio Dantas:

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

Vlado se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo em 1959 e, desde então, exerceu a atividade jornalística em diferentes veículos de imprensa e também no cinema. Ele iniciou a carreira jornalística como repórter do jornal O Estado e S. Paulo e participou do grupo responsável pela instalação da sucursal de Brasília do jornal. Em 1962, conheceu a estudante de ciências sociais Clarice Chaves, com quem iria se casar em fevereiro de 1964, cerca de dois meses do golpe militar.

Em 1963, filmou no Rio de Janeiro o documentário “Marimbás” , primeiro filme brasileiro a utilizar som direto. Em 1965, gerenciou a produção do curta-metragem “Subterrâneos do Futebol”, de Maurice Capovilla; e o início do roteiro do filme “Doramundo”, que só viria a ser filmado depois da morte dele por João Batista de Andrade. O mesmo cineasta homenageou Vlado com um documentário 30 anos depois.

Entre as primeiras consequências do regime militar na vida do casal, está a ida para Londres em 1965 onde Vlado foi contratado pela BBC. Na Inglaterra, nasceram os filhos do casal, Ivo e André. Ele voltou ao Brasil em 1968 e passa a atuar como editor da revista Visão. Em 1972, trabalhou pela primeira vez na TV Cultura.

Documentário inédito dá voz às mulheres que lutaram na Ditadura Militar

Após 12 anos de intensa produção, as diretoras Danielle Gaspar e Krishna Tavares trazem à tona o depoimento de mulheres que lutaram na Ditadura Militar do Brasil, no documentário batizado de “Atrás de Portas Fechadas”. São 73 minutos em que o público mergulha em um registro histórico sobre ex-militantes de organizações que protestavam pela participação política contra a repressão.

A ideia do projeto nasceu de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) quando as duas ainda cursavam a faculdade de jornalismo na PUC-Campinas, em 2003.

“Ao longo da investigação, percebemos a importância do material que estávamos coletando e, captamos as entrevistas, já com a intenção futura de finalizarmos um longa. Queríamos falar da mulher comum e descobri-la como sujeito da história, pois percebemos que as mulheres são destinadas ao ‘silêncio das paredes domésticas’ e excluídas do relato histórico oficial, que se baseia no espaço público, mais especificamente nas relações políticas”, explica Danielle.

Coupia_de_CARTAZ_2015_onlineO documentário permeia, ainda, a questão das mulheres da elite brasileira que deixaram seus lares apenas provisoriamente para defender-se da “ameaça comunista”. Tais eventos influenciaram o debate sobre o comportamento e a condição da mulher na sociedade brasileira. Ao observarem a instância pública da vida destas pessoas, veio a seguinte pergunta: “o que ocorre na vida privada que determina as escolhas na vida pública?”.

“Tínhamos lido muitas coisas a respeito de mulheres que participaram das organizações de esquerda que atuaram no combate contra a ditadura de 1964, além de filmes e eventos a respeito deste tema. Mas também nos impactava os relatos e registros sobre as Marchas da Família com Deus Pela Liberdade e, sobretudo, a falta de interesse acadêmico ou artístico em estudar ou entender tal movimento”, diz a documentarista.

A produção reúne entrevistas com Zilah Abramo, socióloga, organizadora da Comissão de Mães em Defesa dos Direitos Humanos e vice-presidente da Fundação Perseu Abramo; Maria Amélia Teles, ex-militante do Partido Comunista do Brasil, fundadora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985 e integrante da Comissão Estadual da Verdade de SP, quatro integrantes da UCF (União Cívica Feminina), entre outras, totalizando oito entrevistadas, mescladas entre os dois contextos apresentados.

A estreia do documentário está marcada para acontecer em São Paulo no próximo sábado, dia 24, durante o Cine Direitos Humanos, no Espaço Itaú de Cinema do Shopping Frei Caneca. A programação começa às 11h e haverá debate com as diretoras ao final. Os convites de entrada serão distribuídos 1h antes. Em breve, “Atrás de Portas Fechadas” também será exibido no Rio de Janeiro e Brasília.

Assista ao trailer aqui

Volks denunciada por colaborar com a ditadura militar

Dossiê com provas será entregue amanhã ao Ministério Público Federal. VW é primeira empresa denunciada. Haverá outras. Fórum de trabalhadores quer reparação social.

Assista o vídeo com a reportagem aqui

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Major Curió confessa crimes na ditadura

Militar afirma ter matado dois prisioneiros no Araguaia

Rio – Em dez horas de depoimento inédito à Justiça Federal na quarta-feira, Sebastião Rodrigues de Moura, 77 anos, o Major Curió, revelou que matou dois prisioneiros da Guerrilha do Araguaia no início da década de 70, durante o regime militar. O militar ainda indicou onde estão enterrados os corpos de dois militantes, até hoje não localizados pelos grupos de trabalho nas expedições que se iniciaram nos anos 90.

Em depoimento à Justiça, Curió indicou a localização dos corpos

Foto: Reprodução Internet

A audiência em segredo de Justiça ocorreu na 1ª Vara Federal de Brasília, sob comando da juíza Solange Salgado, que coordena o inquérito aberto pelo Ministério Público Federal. A audiência, em segredo de Justiça na 1ª Vara Federal de Brasília, foi marcada por momentos tensos. Curió só apareceu à força, conduzido no camburão da Polícia Federal.

Na presença de advogados e parentes de vítimas, o militar, que era capitão à época, mas tido como o principal algoz da Guerrilha do Araguaia, confessou ter matado os guerrilheiros Antônio Theodoro Castro, codinome Raul, e Cilon Cunha Brun, o Simão. Revelou que à ocasião ordenou a um capataz enterrar os corpos e indicou à juíza a localização atual. No depoimento, Curió alegou que a dupla tentou fugir e foi abatida a tiros – ou seja, na sua tese, não houve execução. Curió também relatou que sempre cumpria ordens do superior Leo Frederico Cinelli, então tenente-coronel do Centro de Informações do Exército, o temido CIE. Cinelli é vivo e mora em Brasília.

Embora o militar esteja amparado pela anistia, as revelações do depoimento vão nortear várias decisões da Justiça a respeito das buscas de desaparecidos e desencadear mudanças editoriais nas obras já publicadas até agora. Durante a audiência não houve deferência da juíza e procuradores ao militar, ao qual se dirigiram o tempo todo como ‘Seu Sebastião’.

Curió foi o mais temido militar atuante na região do Araguaia durante o regime. Era capitão das tropas que aniquilaram a guerrilha. Ganhou fama desde então, e ascendeu na hierarquia militar chegando às patentes de major e tenente-coronel. Com esta patente controlou na década de 80 o garimpo de Serra Pelada (PA) e fundou uma cidade que leva o seu nome, Curionópolis (PA).

Morre Brilhante Ustra, ex-chefe do Doi-Codi

Coronel reformado tinha 83 anos e se tratava de um câncer

 

O coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra - Ailton de Freitas / 10-05-2013 / Agência O Globo

 

BRASÍLIA – O coronel reformado Carlos Brilhante Ustra, 83 anos, que chefiou o Doi-Codi do 2º Exército, morreu na madrugada desta quinta-feira. Ele estava internado na UTI do Hospital Santa Helena, em Brasília, em estado gravíssimo. Ustra teve complicações a partir de um câncer de próstata, que provocou uma metástase. Ele também foi acometido de forte pneumonia. O corpo de Ustra será velado a partir das 16h de hoje, na capela do Hospital das Forças Armadas. Ele será cremado na sexta-feira.

 

O coronel reformado é apontado por dezenas de perseguidos políticos e familiares de vítimas do regime militar como responsável pelas perseguições, tortura e morte de opositores do golpe de 64. O Dossiê Ditadura, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, relaciona o coronel com 60 casos de mortes e desaparecimentos em São Paulo. A Arquidiocese de São Paulo, por meio do projeto Brasil Nunca Mais, denunciou mais de 500 casos de tortura cometidos dentro das dependências do Doi-Codi no período em que Ustra era o comandante, de 1970 a 1974.

 

Ustra era conhecido nos porões da ditadura como “Dr. Tibiriçá”, ele era o único militar brasileiro declarado torturador pela Justiça.

 

Em agosto, o Ministério Público Federal (MPF), ofereceu denúncia contra Ustra. Ele é apontado como responsável pela morte do militante comunista Carlos Nicolau Danielli, sequestrado e torturado nas dependências do Destacamento de Operações e Informações do (DOI), em São Paulo, em dezembro de 1972.

 

MORTE TRAZ SENTIMENTOS OPOSTOS

 

O coronel da reserva Pedro Ivo Moézia, que foi subordinado de Ustra no Doi-Codi, lamentou a morte de seu superior.

 

— Foi uma grande perda para o Brasil e para o Exército. O Ustra era o único grande herói nacional vivo. Ele cumpriu missões difíceis. Foi um dos principais responsáveis por termos acabado com o terrorismo e a subversão, mas que, infelizmente, não obteve o valor devido do Exército. Como amigo e subordinado, sinto muito. Foi um injustiçado. Um símbolo da nossa resistência e que toda essa estrutura de governo, do PT, se debruçou para acabar com ele — disse Moézia.

 

— Mesmo a morte de uma pessoa que cometeu as maiores atrocidades é de se lamentar. Foi tirado dele, nessa existência, a oportunidade de se arrepender e confessar seu papel perverso na máquina estatal de tortura de seres humanos. Vamos ficar com essa lacuna na reconstituição de nossa história recente — disse o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ).

 

— Perdemos hoje um símbolo da luta pela democracia. O coronel Ustra esteve na linha de frente no combate a guerrilheiros formados em Cuba e financiados pela União Soviética para aqui impor a ditadura do proletariado. Devemos a ele parte da liberdade que ainda gozamos no Brasil — lamentou o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ).

 

Já o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, criticou o fato dele não ter sido punido em vida:

 

- O Supremo Tribunal Federal aguarda que todos morram antes de decidir definitivamente sobre a validade da Lei da Anistia e sobre a obrigatoriedade da execução da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que estabelece o dever de responsabilização dos crimes da ditadura. A Lei da Anistia é a verdadeira lei da vergonha e da impunidade no Brasil – disse Abrão.

 

A família de Ustra registrou a morte do militar nas redes sociais. São vários os comentários elogiosos de internautas: “Torturador de vermelho. Vai fazer falta”; “obrigado por proteger o Brasil do inimigo comunista em um passado recente”; “exemplar combatente das forças patrióticas”; “um excelente brasileiro que ajudou a livrar o país da corja comunista”; “morreram ou mataram?”.

 

 

 

Entrega da Medalha Tiradentes (Post mortem) a Inês Etienne Romeu

A Comissão da Verdade do Rio repassa o convite para a Cerimônia de entrega da Medalha Tiradentes (Post mortem) a Inês Etienne Romeu. A solenidade acontecerá no Plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (rua Primeiro de Março, s/n), amanhã, dia 16 de setembro, às 18h.


“Nascida em 1942, a guerrilheira Inês Etienne Romeu, mineira de Pouso Alegre, deixou-nos no último dia 27 de abril, em Niterói, cidade que adotou para viver seus últimos anos de vida. A luta dessa grande mulher contra a ditadura é exemplar na História do país e jamais deve ser esquecida. Sua resistência à opressão do regime militar a levou a ser a única presa política a sobreviver na chamada “Casa da Morte” em Petrópolis, um centro clandestino do Exército, no qual ocorreram inúmeras violações de direitos humanos. Lembrar-se de Inês, portanto, é um dever cívico. No próximo dia 16, às 18h, ela será homenageada post mortem com a Medalha Tiradentes na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a ser entregue a seus familiares pelo deputado estadual Flavio Serafini (PSOL). Na sessão solene no Plenário, parentes, amigos e admiradores da trajetória dela em defesa da democracia estarão presentes com o intuito de preservar a memória de quem arriscou a vida pelo Brasil e travou uma enorme batalha para que as atrocidades da Casa da Morte viessem à tona.

Caçula de cinco irmãos, Inês iniciou sua trajetória humanista ao cursar Sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais nos anos 1960. Atuou no Sindicato dos Bancários de Minas Gerais e, ante a crescente repressão do regime miliar, foi obrigada a ingressar na clandestinidade. Militou na Política Operária (POLOP), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Encarcerada, seu sofrimento na Casa da Morte pode ser sintetizado por um depoimento dela absolutamente chocante. “Meus carrascos afirmaram que me suicidariam na prisão, caso eu revelasse os casos que vi e que me contaram durante os três meses de minha prisão, pois reconheceram que eu sabia demais”. Inês revelou que eles queriam que ela morresse “naturalmente”, a fim de que não fossem responsabilizados. Sua sobrevivência permitiu que a verdade viesse à superfície, para frustração dos carrascos que a submeteram a choques elétricos, espancamentos e toda a sorte de humilhações. A descrição de Inês sobre todo esse sofrimento no dia a dia da Casa da Morte se estendeu às atrocidades sofridas pelos demais presos – todos assassinados – neste centro clandestino de tortura.
Em nome da verdade, Inês iludiu seus algozes e sobreviveu. Condenada à prisão perpétua, foi libertada em 1979, com a Anistia. Uma vez livre, pôde denunciar a existência e a localização da casa da morte e seus torturadores.
Na solenidade na Alerj, sua história será relembrada como uma aula de cidadania e amor pela democracia. Um sentimento cada vez mais fundamental nos dias atuais.”

Texto da assessoria do deputado estadual Flavio Serafini.

Corpo de Stuart Angel pode estar enterrado na Base Aérea de Santa Cruz

O corpo do estudante de economia e professor Stuart Edgar Angel Jones pode ter sido enterrado na Base Aérea de Santa Cruz. Ele era militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro e foi preso irregularmente, torturado e morto em maio de 1971 em uma prisão clandestina na Base Aérea do Galeão, por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa),  que buscavam informações sobre Carlos Lamarca. Não há versão oficial sobre o paradeiro do corpo.

A informação sobre a localização corpo está no relatório preliminar sobre o caso, apresentado hoje (9) pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) em audiência pública no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. O possível local do enterro foi apontado no depoimento do capitão reformado da Aeronáutica Álvaro Moreira de Oliveira Filho, que ouviu a história do colega José do Nascimento Cabral, já morto.

Cabral era controlador de voo e servia em Santa Cruz. Segundo Moreira, Cabral relatou ter visto da Torre de Controle uma movimentação noturna incomum, com a interdição da pista de pouso a pedido do brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, comandante da base na época,  e um corpo sendo enterrado na cabeceira. Os militares que serviam no local disseram que se tratava de Stuart Angel.

De acordo com o secretário executivo da CNV, André Sabóia, a comissão pretende fazer investigações in loco, mas é precisa da colaboração da Aeronáutica para encontrar o corpo. “Tecnicamente é possível, mas nós precisamos da colaboração intensa da Aeronáutica para ter informações mais precisas sobre esse fato, porque há comandantes da base aérea do Galeão e de Santa Cruz à época vivos, nós temos esses nomes, a Aeronáutica nos informou. Essas pessoas, além de outros militares e civis que serviram nesses locais, poderão dar informações mais precisas para essas buscas, utilizando as tecnologias mais modernas de radar de solo e outras técnicas”.

A CNV vai fazer um pedido formal de informações técnicas sobre o caso. O coordenador da comissão, Pedro Dallari lembra que a versão oficial diz que Stuart é considerado desaparecido, mas dois documentos das Forças Armadas confirmam a morte do estudante.

“Temos comprovação de que Stuart foi morto. Em um documento de 14 de setembro de 1971 e outro de 1975 ele é dado como morto. Documentos das Forças Armadas dão conta de que a morte ocorreu na Base Aérea do Galeão. As informações anteriores falavam que o corpo teria sido jogado no mar ou enterrado em um cemitério clandestino, agora temos essa informação de Santa Cruz. Nós vemos que o padrão de ocultação de cadáver se mantém, como no caso de Rubens Paiva, que teria sido levado para o Alto da Boa Vista. Os corpos são levados para locais ermos”.

Muito emocionada na audiência, a jornalista Hildegard Angel, irmã de Stuart, considerou a informação um alento, depois de tantos anos de negação da verdade.

“Enfim tenho uma informação que me parece objetiva a respeito do paradeiro dos restos mortais do meu irmão. E espero que o ministro da Defesa, embaixador Celso Amorim, e o comandante da Aeronáutica tenham o mesmo espírito colaborativo com o país, porque um país sem história não é um país digno, não é uma pátria. A dignidade só vem através da verdade. Temos que dar aos nossos heróis, aos nossos mártires, a honra da sua verdadeira história”.

A mãe de Stuart, a estilista Zuzu Angel, morreu em um acidente de carro em abril de 1976, depois de fazer uma campanha internacional para encontrar o filho, que constrangeu o governo brasileiro. Em 1998, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu que a morte dela foi um atentado político.

A viúva de Stuart, Sonia Maria Lopes de Moraes, se exilou na França em 1970, depois de ser presa e perseguida por atuar no movimento estudantil. Voltou ao Brasil após a prisão de Stuart e se mudou para o Chile. Retornou ao Brasil em 1973 e foi presa com o companheiro de organização Antonio Crlos Bicalo Lana em São Vicente, litoral de São Paulo. Os dois foram torturados, mortos e enterrados no Cemitério de Perus, em São Paulo, ela com nome falso.