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Itália vai julgar agentes da ditadura brasileira

Jornal GGN - Na última sexta-feira (26), a Justiça italiana decidiu que irá julgar separadamente os brasileiros Marco Aurélio da Silva Reis, João Osvaldo Leivas Job, Carlos Alberto Ponzi e Átila Rohrsetzer, agentes da ditadura militar brasileira. Os quatro são acusados de homícidio do ítalo-argentino Lorenzo Ismael Viñas em 1980. Os juízes italianos acataram o pedido da defesa dos brasileiros, que pediam que eles fossem julgados separadamente de outros 33 acusados de participar de crimes nas ditadura da América Latina.

O julgamento dos brasileiros vai começar no dia 9 de maio, na cidade de Roma, e o réus poderão ser condenados à prisão perpétua. O processo Condor começou um ano atrás e acusa outros 33 militares e políticos latino-americanos por crimes contra a humanidade, ao terem participado de assassinatos e sequestros durante os regimes autoritários nas décadas de 70 e 80. A Itália decidiu processá-los porque eles são suspeitos de envolvimento em mortes de cidadões com dupla cidadania.

Enviado por José Carlos Lima

Da RFI

Itália julgará agentes da ditadura militar brasileira em maio

A III Corte de Assis, em Roma, decidiu nesta sexta-feira (26) julgar separadamente os brasileiros Marco Aurélio da Silva Reis, João Osvaldo Leivas Job, Carlos Alberto Ponzi e Átila Rohrsetzer, acusados de homicídio culposo do ítalo-argentino Lorenzo Ismael Viñas, em 1980. Os quatro eram agentes da ditadura militar brasileira à época. A Justiça Italiana debatia se eles deveriam ser julgados ao lado dos outros 33 acusados de participar de crimes nas ditaduras latino-americanas ou em um processo à parte.

Gina Marques, correspondente da RFI Brasil em Roma.

Os juízes acataram os argumentos da defesa dos brasileiros, que pretendiam obter o julgamento em separado. Como o processo Condor foi aberto em fevereiro de 2015 e muitas testemunhas já haviam sido ouvidas, os magistrados decidiram pelo desmembramento da acusação contra os brasileiros. O julgamento deles começará no próximo 9 de maio, em Roma. Os réus poderão ser condenados à prisão perpétua.

O processo Condor começou há um ano, na Itália, e acusa outros 33 militares e políticos latino-americanos por crimes contra a humanidade, ao terem participado de assassinatos e sequestros durante os regimes autoritários em países como Argentina e Brasil nas décadas de 70 e 80. A Itália decidiu processar estes 33 porque eles são suspeitos de envolvimento nas mortes de cidadãos com dupla cidadania, uma delas sendo italiana.

O advogado Giancarlo Maniga, que representa a família Viñas, explicou à RFI Brasil: “As provas reunidas contra os outros 33 acusados já estão em fase avançada. Esta decisão dos juízes era previsível, pois inserir os réus brasileiros no mesmo processo poderia violar o direito de defesa deles.”

Operação Condor

Os quatro acusados brasileiros são defendidos pelos advogados públicos Anixia Torti e Valentina Perrone. “Eticamente, a abertura de outro processo não é a melhor solução, mas deontologicamente fizemos o que deveríamos”, declarou Valentina Perrone.

A audiência pública desta sexta-feira iniciou as 10h, hora local. A corte, formada por cinco juízes, presidida por Evelina Canale, ouviu também a Giulia Barrera, arquivista que testemunhou apresentando documentos sobre a Operação Condor. Ela explicou o período da ditadura político-militar do Brasil e da América do Sul e a ligação com os serviços secretos dos Estado Unidos.

Entre os documentos apresentados por Barrera estava um telegrama ao Departamento de Estado dos Estados Unidos comunicando a adesão do Brasil ao grupo Condor em 1976. A chamada Operação Condor foi uma aliança político-militar durante as ditaduras de 1970 e 1980 entre os vários regimes militares da América do Sul — Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai com a CIA dos Estados Unidos.

Entenda o processo

Em 2005, o Ministério Público italiano apresentou uma primeira lista de indiciados – um total de 140 militares e políticos de toda a América Latina envolvidos na morte de cidadãos com dupla cidadania italiana.

A lista de 140 acabou resultando em 33 processados. Onze brasileiros faziam parte da lista original, mas apenas estes quatro réus ainda estão vivos.

Caso Viñas

Em 1980, os quatro brasileiros tinham cargos de responsabilidade. Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul. Ponzi comandava o Serviço Nacional de Informações (SNI) de Porto Alegre. Rohrsetzer dirigia a Divisão Central de Informações em Porto Alegre e o delegado Silva Reis era diretor estadual do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Rio Grande do Sul. Atualmente Rohrsetzer mora em Florianópolis, Silva Reis em uma praia do litoral gaúcho. Leivas Job e Ponzi vivem em Porto Alegre.

Lorenzo Ismael Viñas foi sequestrado em Uruguaiana na fronteira entre o Brasil e a Argentina em 26 de junho de 1980 e em seguida desapareceu. Ele era militante do grupo Montoneros, de oposição à ditadura da Argentina. Em 12 de março do mesmo ano, outra vítima ítalo-argentina também desapareceu no Brasil. Trata-se de Horacio Campiglia, que foi sequestrado no aeroporto Galeão, no Rio de Janeiro. No entanto, os quatro brasileiros não serão julgados pela morte de Campiglia.

A advogada da família Campiglia, Martina Felicori, falou à RFI Brasil: “Os juízes avaliaram que não existem elementos suficientes que poderiam demonstrar o envolvimento dos quatro brasileiros no caso Campiglia. Talvez porque os réus ocupavam cargos de responsabilidade no Rio Grande do Sul, distante do Rio de Janeiro”.

Na Itália, o réu pode ser processado à revelia, mas ele tem que ser comunicado sobre a acusação para poder nomear um advogado de defesa.

Impunidade para os agentes da ditadura era total, diz Clarice Herzog

As mortes em sequência do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e do metalúrgico Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976, três meses depois, foram para Clarice Herzog, viúva do jornalista, uma demonstração de como a impunidade acobertava as ações criminosas dos agentes da ditadura.

manoel fiel filho“A impunidade era tão grande. eles se sentiam tão poderosos, que podiam mostrar aquela foto do Vlado enforcado com pé no chão e o Fiel Filho enforcado, sentado numa privada. É uma vergonha, porque nem se preocupavam de fazer uma farsa bem-feita, porque a impunidade para eles era total”, disse à Agência Brasil.

O jurista Hélio Bicudo colheu depoimentos de ex-presos da época da ditadura para validar a versão de assassinato praticado por agentes do Estado. “Ninguém que atuava na área poderia acreditar que aquilo foi suicídio. Sabia-se, como foi no caso do Herzog, que era uma morte praticada pela polícia política”, disse.

Bicudo destaca que os dois episódios, as mortes de Herzog e de Fiel Filho, foram importantes para reconstrução da democracia no Brasil. “Essas duas mortes mostravam que a atuação dos agentes da repressão se manifestava não só na classe média, mas também na classe operária, como é o caso do Manoel. Foi uma morte que trouxe um anseio de mobilização para a sociedade, de necessidade de mudança”, afirmou.

*Edição: Aécio Amado.

Vlado – 30 anos depois

No dia 25 de Outubro de 1975, o jornalista Vladmir Herzoga presentou-se ao DOI-CODI (órgão da repressão política do regime militar) para prestar um depoimento. No fim da tarde do mesmo dia, a família e amigos de Vlado recebem a terrível notícia: Vlado estava morto e, segundo fonte oficial, teria cometido suicídio na prisão. O filme revela, a partir de depoimentos de amigos, familiares, colegas que viveram com ele a história, a amplitude das perseguições daqueles momentos, a trajetória do jornalista, desde sua infância, na Iugoslávia, com sua família de origem judaica, fugindo da perseguição nazista, suas idéias políticas, sua militância, seu senso de ética, até sua posse como Diretor de Jornalismo na TV Cultura de São Paulo e a perseguição a ele iniciada naquele momento e o horror dos porões do regime militar, onde imperava a tortura e os assassinatos políticos.

Vladimir Herzog foi um daqueles que se preocupavam muito com a liberdade da sociedade, diferentemente de muitos jornalistas renomados da sua época. Talvez por isso o seu destino foi semelhante à imprensa que lutava contra a Ditadura: a Morte.
Mas sua morte semeou a rebeldia em certos setores da sociedade.

Conheça a vida de Vlado e além disso, conheça um pouco da imprensa tradicional brasileira, a mesma que pediu sua cabeça. Direção: João Batista de Andrade

Vlado – 30 anos depois

 

Especial Vladmir Herzog

Nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira, jornalistas eram caçados e silenciados. Há exatos 40 anos, um deles, Vladimir Herzog, tornou-se símbolo da resistência. Na data que marca os 40 anos do assassinato de Herzog, esta edição do Matéria de Capa é dedicada à imprensa, aos novos colegas de Vlado e os desafios que enfrentam.

Assista aqui a matéria da EBC

 

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

A morte do jornalista Vladimir Herzog completou 40 anos no último domingo, 25. Ele era diretor do telejornal ‘Hora da Notícia’, veiculado pela TV Cultura de São Paulo. Segundo foi reconhecido depois, Vlado foi morto sob tortura pelos militares após ser detido nas dependências do Destacamento de Operação de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOPS/SP) . Ele deixou viúva a esposa Clarice, com os dois filhos do casal, Ivo, na época com 9 anos, e André, com 7.

A comoção causada pela morte do jornalista reaglutinou diversos setores da sociedade e provocou a primeira reação popular contra os excessos do regime militar. Por esse motivo, a data de morte foi escolhida para celebrar a democracia no país, sendo considerada o “Dia da Democracia”.

Um marco desse processo foi o ato ecumêmico realizado na Catedral da Sé. Realizado cerca de uma semana após a morte de Herzog, o ato, que teve a presença do rabino Henry Sobel e do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, reuniu milhares de pessoas para homenagear o jornalista, em um protesto silencioso contra o regime.

No vídeo a seguir, o jornalista Audálio Dantas, autor da biografia “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, conta como se deu o processo da prisão de Vlado ao ato Ecumênico na Sé:

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

Circunstâncias da morte
Divulgada como suicídio em comunicado do II Exército na época, com a utilização de uma foto forjada, a versão das circustância em que Valdo morreu – também mantida pelo Inquérito Policial Militar (IPM) realizado naquele ano – foi desmontada. Com uma ação declaratória realizada no ano seguinte, Clarice Herzog conseguiu, em outubro de 1978, a condenação da União pela prisão arbitrária, tortura e morte de Vladimir.

Em 2013, como parte dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a família conseguiu a retificação do atestado de óbito onde consta que a morte do jornalista se deu em função de “lesões e maus tratos sofridos durante os interrogatórios em dependência do II Exército (DOI-CODI)”.

O relatório final da Comissão aponta “não existir mais qualquer dúvida acerca das circunstâncias de Vladimir Herzog, detido ilegalmente, torturado e assassinado por agentes do Estado nas dependências do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, em outubro de 1975″.

Em setembro de 2014, a equipe de peritos da Comissão concluiu laudo pericial indireto sobre a morte do jornalista, que constatou a evidência de duas marcas distintas na região cervical, determinante para os peritos afirmarem que:

“Vladimir Herzog foi inicialmente estrangulado, provavelmente com a cinta citada pelo perito criminal e, em ato contínuo, foi montado um sistema de forca uma das extremidades foi fixada a grade metálica de proteção da janela e, a outra, envolvida ao redor do pescoço de Vladimir Herzog, por meio de uma laçada móvel. Após, o corpo foi colocado em suspensão incompleta de forma a simular um enforcamento”.

Segundo o relatório da Comissão da Verdade, Vlado foi morto pela “Operação Radar”, que tinha o objetivo de localizar e desarticular a infraestrutura do Partido Comunista do Brasil (PCB) em todo o território nacional e foi responsável pela morte de 20 militantes do partido entre 1974 e 1976, 11 deles ainda desaparecidos.

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Vlado foi morto nas dependências do DOI-Codi (Imagem: Arquivo Pessoal)

Prisão
Vladimir Herzog, então diretor do telejornal Hora da Notícia, foi procurado por agentes da repressão em casa e no trabalho no dia 24 de outubro de 1975. Preocupada com a estranha visita, a esposa Clarice se dirigiu à TV Cultura onde Herzog acompanhava o fechamento e veiculação do telejornal que dirigia. Dois agentes o esperavam do lado de fora. Com intervenção de colegas e da direção da TV Cultura, Herzog não foi levado naquele dia e se prontificou a se apresentar na manhã seguinte aos militares na rua Thomás Carvalhal, 1030, sede do DOI. No dia 25, ele se apresentou conforme o combinado e ficou detido para interrogatórios, de onde não saiu com vida.

Antes do conhecimento da morte, os colegas de Vlado souberam da detenção por meio de uma nota do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, então presidido pelo alagoano Audálio Dantas. Além de anunciar a prisão de Vlado, a nota publicada no dia 26 em alguns jornais trazia o nome de mais 10 jornalistas que estavam em poder dos militares, todos presos naquele mês. Em uma reportagem completa sobre o caso publicada um mês depois no Jornal Ex, Mylton Severiano, Narciso Kalili e Palmério Dória, editores do veículo e colegas de Herzog traçaram a seguinte descrição sobre ele.

“O Vlado chegava sempre no meio da tarde, aí pelas 4 e meia. Naquela época ele era uma espécie de secretário do telejornal. Era de chegar trabalhando: pegava a pauta, lia imediatamente com uma atitude muito sua, a de coçar alguns cabelos do alto da cabeça, de pé, e o papel na outra mão. Sua função era editar e botar no ar o telejornal que nós fazíamos, com uma equipe de mais de 20 pessoas. Ou seja, às 21 horas em ponto, com script na mão, ele acompanhava da técnica os 30 minutos de “Hora da Notícia”, como um responsável e representante da redação, ali na hora, no estúdio”.

No dia seguinte chegava a nota oficial do II Exército, informando a morte do jornalista e apontando que ele teria se suicidado. O primeiro questionamento a essa versão partiu do sindicato em São Paulo. Além de informar que Vlado tinha sido procurado por agentes de segurança no dia 24 por volta das 21h30 e se apresentado espontaneamente no dia seguinte, a nota apontava a responsabilidade dos agentes pela morte de Vlado e questionava o modo arbitrário pelo qual ocorriam as prisões de jornalistas.

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Especial resgatou a infância e a carreira do jornalista (Imagem: Reprodução/EBC)

“Não obstante as informações oficiais fornecidas pelo II Exército, em nota distribuída à imprensa, o Sindicato dos Jornalistas deseja notar que, perante a lei, a autoridade é sempre responsável pela integridade física das pessoas que coloca sob sua guarda. O Sindicato dos Jornalistas, que ainda aguarda esclarecimentos necessários e completos, denuncia e reclama das autoridades um fim a esta situação em que jornalistas profissionais, no pleno, claro e público exercício de sua profissão, cidadãos com trabalho regular e residência conhecida, permanecem sujeitos ao arbítrio dos orgãos de Segurança, que os levam de suas casas, ou de seus locais de trabalho, sempre a pretexto de que irão apenas prestar depoimento, e os mantém presos, incomunicáveis, sem assistência da família e jurídica, por vários dias e até por várias semanas em flagrante desrespeito à lei”.

Vida de Herzog
Vlado Herzog nasceu em Osijek na Iugoslávia em 27 de junho de 1937 e se mudou para o Brasil com a família para fugir da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Naturalizado brasileiro, mudou seu nome para Vladimir.

Assista à vida de Herzog narrada por Audálio Dantas:

Vlado 40 anos depois: morte e comoção

Vlado se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo em 1959 e, desde então, exerceu a atividade jornalística em diferentes veículos de imprensa e também no cinema. Ele iniciou a carreira jornalística como repórter do jornal O Estado e S. Paulo e participou do grupo responsável pela instalação da sucursal de Brasília do jornal. Em 1962, conheceu a estudante de ciências sociais Clarice Chaves, com quem iria se casar em fevereiro de 1964, cerca de dois meses do golpe militar.

Em 1963, filmou no Rio de Janeiro o documentário “Marimbás” , primeiro filme brasileiro a utilizar som direto. Em 1965, gerenciou a produção do curta-metragem “Subterrâneos do Futebol”, de Maurice Capovilla; e o início do roteiro do filme “Doramundo”, que só viria a ser filmado depois da morte dele por João Batista de Andrade. O mesmo cineasta homenageou Vlado com um documentário 30 anos depois.

Entre as primeiras consequências do regime militar na vida do casal, está a ida para Londres em 1965 onde Vlado foi contratado pela BBC. Na Inglaterra, nasceram os filhos do casal, Ivo e André. Ele voltou ao Brasil em 1968 e passa a atuar como editor da revista Visão. Em 1972, trabalhou pela primeira vez na TV Cultura.

Documentário inédito dá voz às mulheres que lutaram na Ditadura Militar

Após 12 anos de intensa produção, as diretoras Danielle Gaspar e Krishna Tavares trazem à tona o depoimento de mulheres que lutaram na Ditadura Militar do Brasil, no documentário batizado de “Atrás de Portas Fechadas”. São 73 minutos em que o público mergulha em um registro histórico sobre ex-militantes de organizações que protestavam pela participação política contra a repressão.

A ideia do projeto nasceu de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) quando as duas ainda cursavam a faculdade de jornalismo na PUC-Campinas, em 2003.

“Ao longo da investigação, percebemos a importância do material que estávamos coletando e, captamos as entrevistas, já com a intenção futura de finalizarmos um longa. Queríamos falar da mulher comum e descobri-la como sujeito da história, pois percebemos que as mulheres são destinadas ao ‘silêncio das paredes domésticas’ e excluídas do relato histórico oficial, que se baseia no espaço público, mais especificamente nas relações políticas”, explica Danielle.

Coupia_de_CARTAZ_2015_onlineO documentário permeia, ainda, a questão das mulheres da elite brasileira que deixaram seus lares apenas provisoriamente para defender-se da “ameaça comunista”. Tais eventos influenciaram o debate sobre o comportamento e a condição da mulher na sociedade brasileira. Ao observarem a instância pública da vida destas pessoas, veio a seguinte pergunta: “o que ocorre na vida privada que determina as escolhas na vida pública?”.

“Tínhamos lido muitas coisas a respeito de mulheres que participaram das organizações de esquerda que atuaram no combate contra a ditadura de 1964, além de filmes e eventos a respeito deste tema. Mas também nos impactava os relatos e registros sobre as Marchas da Família com Deus Pela Liberdade e, sobretudo, a falta de interesse acadêmico ou artístico em estudar ou entender tal movimento”, diz a documentarista.

A produção reúne entrevistas com Zilah Abramo, socióloga, organizadora da Comissão de Mães em Defesa dos Direitos Humanos e vice-presidente da Fundação Perseu Abramo; Maria Amélia Teles, ex-militante do Partido Comunista do Brasil, fundadora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985 e integrante da Comissão Estadual da Verdade de SP, quatro integrantes da UCF (União Cívica Feminina), entre outras, totalizando oito entrevistadas, mescladas entre os dois contextos apresentados.

A estreia do documentário está marcada para acontecer em São Paulo no próximo sábado, dia 24, durante o Cine Direitos Humanos, no Espaço Itaú de Cinema do Shopping Frei Caneca. A programação começa às 11h e haverá debate com as diretoras ao final. Os convites de entrada serão distribuídos 1h antes. Em breve, “Atrás de Portas Fechadas” também será exibido no Rio de Janeiro e Brasília.

Assista ao trailer aqui

40 anos da morte de Vlado: um depoimento de Clarice Herzog

Entrevista exclusiva a Paulo Markun, no ‘SP, Brasil’ vai ao ar na próxima segunda-feira, às 19h (canal 7 da NET e 61.4 da TV Digital Aberta). Conversa resgata aspectos importantes dos “Anos de Chumbo”

Quis o destino que justamente na semana em que as forças democráticas preparam homenagens ao jornalista Vladimir Herzog, corresse nas redações a morte do coronel Brilhante Ustra, chefe da repressão na ditadura militar.

As chagas deixadas por essa ditadura e detalhes dos momentos finais da vida de Vlado irão ao ar na próxima segunda-feira, às 19h, na voz da viúva do jornalista, Clarice Herzog.

Cabe acentuar a causa mortis de (Carlos Alberto) Ustra, o coronel torturador: falência múltipla de órgãos decorrentes de uma pneumonia, na quinta-feira, 15. Ele comandou o Departamento de Informações do 2º Exército, o temido DOI-Codi, em cujas dependências – segundo o livro Brasil: Nunca Mais – centenas de pessoas foram torturadas. Mais: sob o comando direto de Ustra, ao menos 45 brasileiros foram torturados e assassinados. São 45 histórias brutalmente interrompidas num momento em que o Estado Brasileiro calou boa parte da sociedade civil.

clarice-herozogClarice Herzog conversou com Paulo Markun (Imagem: Reprodução/TV Câmara SP)

Pois a farsa que o DOI-Codi tentou imputar ao grande jornalista, então diretor da TV Cultura e que compareceu para prestar depoimentos nas instalações do 2º Exército, há exatas quatro décadas, foi a repugnante versão de suicídio. A Comissão da Verdade desmontou a falsidade de um laudo técnico elaborado na calada da noite. Somaram-se à verdadeira perícia depoimentos de jornalistas presos com Vlado. Ele foi morto numa terrível sessão de tortura e maus tratos.

Meu grande amigo jornalista e presidente do sindicato da categoria em São Paulo nos “Anos de Chumbo”, Audálio Dantas, contou detalhes dessa história macabra no livro As duas guerras de Vlado. Por sinal, Audálio revelou, com rara sensibilidade, como o menino Herzog e sua família sobreviveram à perseguição nazista na Europa. Com cenas dignas de “A vida é bela”, o garoto driblou botas e rifles, desembarcou com os pais na cidade de Santos (SP), construiu uma vida saudável aqui no Brasil e acabou morto nas mãos de torturadores a serviço da Ditadura Militar.

“Se as forças armadas reconhecessem o que realmente foi feito, teríamos mais credibilidade neste país”, desabafa Clarice Herzog, no emocionante relato feito ao jornalista Paulo Markun. Em sua entrevista, a mulher forte, corajosa e decidida conta que a família insistirá na Justiça para que o Exército reconheça a farsa montada.

Confira trecho da entrevista de Clarice Herzog ao ‘SP, Brasil’ aqui

Vítimas da ditadura militar: O amor além da figura do Hospício

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Com ela aprendi muitas coisas. Uma delas foi que eu poderia escutar, ajudar e aconselhar os outros .

O seu jeito diferente não me assustava. Nem mesmo seus gritos e frases repetitivas tais como:

-“Eu não sou subversiva! Não me prendam! “

Foi o que fez a ditadura militar na cabeça dela. Maldito período de repressão , capaz de

atormentar mentes, de destruir e desencorajar muitos viventes.

Ela era minha tia, me tinha muito amor e isso superava qualquer problema… era o bastante.

Me tornei sua principal amiga. Comecei  logo cedo a ouvi-la.

Eram muitas histórias de sofrimento.
.
Vozes que iam e vinham, dias e meses marcados por internações no

hospício.

E eu ouvia atentamente , ouvia como uma criança que quer e não têm como ajudar,

ouvia ainda bem menina os seus lamentos. Porém, uma frase ficou na minha memória, era

uma súplica:

-“Eles misturam todo mundo. Há alguns que me queimam, que me agridem. Isso tem que

acabar!!!”

O que me atormentava mais era saber que a qualquer hora ela voltaria para aquele terrível

lugar .

E sempre me contavam histórias do tipo: ‘‘Sua tia foi viajar”

Era a reposta que eu tinha quando percebia a sua ausência

Vivemos muitos anos em sintonia, com muito amor e compreensão. Um pouco antes da

sua derradeira viagem, arrisquei fazer uma pergunta :
“ Porque eu sempre fui sua

sobrinha preferida ? “ Ao que ela rapidamente me respondeu :

- “ Você foi a única criança que se aproximou de mim, que me deu ouvidos e atenção”

Senti-me importante e muito especial.

Hoje fico imaginando ela viva comemorando o 18 de maio no meio dos movimentos de luta antimanicomial.

Onde ela estiver estará feliz.

Por Cristina Nobre (Paraíba) (Foto: Cristina Nobre e sua tia)

Tatiana Merlino expressa a dor pela impunidade de Ustra; veja depoimentos de presos torturados por ele

Hoje é um dia triste. Morreu, aos 83 anos, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi, um dos maiores centros de tortura da ditadura civil-militar. Viveu 60 anos a mais do que meu tio, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, a quem ele impediu de seguir sua vida ao comandar as intermináveis sessões de tortura que o levaram à morte, em 19 de julho de 1971.

Ustra morreu de “morte morrida” e não de “morte matada”, como suas vítimas.

Dia triste para todos familiares de mortos e desaparecidos sob suas ordens. E para os que sobreviveram às torturas. Porque Ustra morreu num hospital. Deveria ter morrido na prisão. Dia triste porque morreu sem ser julgado e preso.

Durante décadas, familiares de mortos e desaparecidos lutaram por justiça. Apenas em 2008 foi declarado torturador pela justiça paulista em ação movida pela família Teles. Em 2012, foi condenado, em primeira instância, a pagar uma indenização à minha família, em ação por danos morais. No país em que torturador da ditadura não é punido, foi o pouco que se conseguiu.

Hoje, a impunidade venceu a justiça.

Leia o depoimento de:

Amelinha Teles, o marido e a irmã foram torturados no DOI-CODI; os filhos pequenos, Janaína e Edson, foram levados até lá pelos militares - https://vimeo.com/66483419

Ivan Seixas teve o pai preso morto sob tortura no DOI-CODI; mas na Folha da Tarde, jornal que a família Frias cedeu à ditadura, saiu que tinha sido num tiroteio – https://vimeo.com/66124246

O ex-deputado Adriano Diogo encontrou Ustra na cadeia; muito depois, liderou a Comissão da Verdade no Estado de São Paulo – https://vimeo.com/67946960

‘É lamentável que eles morram e levem os segredos’, diz ativista sobre morte de Ustra

Ivan Seixas, ativista do Núcleo de Preservação da Memória Pública, avalia que o fato de o coronel do DOI-CODI nunca ter revelado onde estão os desaparecidos da ditadura militar é mais importante que nunca ter sido julgado

O coronel reformado do Exercito Carlos Alberto Brilhante Ustra em depoimento para a Comissão da Verdade em maio deste ano. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O ativista Ivan Seixas, diretor do Núcleo de Preservação da Memória Política, considera que a morte do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, do DOI-CODI de São Paulo, representa a perda de mais um protagonista dos porões que poderia ter indicado a localização de desaparecidos políticos. “Todo mundo tem a preocupação com o fato de (Ustra) ter sido ou não julgado pelos crimes que cometeu, mas acho que o mais importante não é o julgamento. É que essa gente diga onde estão os desaparecidos. Ele (Ustra) e outros estão morrendo e não estão falando. É lamentável que eles morram e levem com eles esses segredos.”

Seixas avalia que a morte de Ustra e de outros agentes da repressão nos anos de chumbo vai dificultar ainda mais a busca pelas vítimas do aparato de tortura que se instalou no DOI-CODI, no famoso endereço da rua Tutoia, em São Paulo. “São muitos anos de trabalho, é uma tarefa difícil a localização (dos desaparecidos). Aí tem que pegar uma informação aqui, outra ali, são fragmentos. Eles (os torturadores) têm que entender que a revelação dos locais onde estão os mortos da ditadura não vai piorar a situação deles, não vai agravar a acusação que já pesa contra eles.”

Ivan Seixas costuma dizer que ‘não entrou na luta, mas nasceu dentro dela’. Filho de um casal de militantes de esquerda que se conheceu no Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele tinha apenas dez anos quando os generais tomaram o poder, em 1964. Seis anos depois, Ivan foi preso com o pai, Joaquim Alencar de Seixas. No DOI-CODI pai e filho foram torturados.Joaquim morreu. Ivan ficou preso até os 22 anos. Hoje ele é um dos mais combativos militantes em busca de informações sobre os mortos e os desaparecidos.

“Quando (Ustra) vai para o comando da Operação Radar (1973/1976) ele torna-se responsável pela morte do comité do partidão, do PCB. Então, ele poderia ter elucidado isso. Seria uma coisa grande. O mais importante é saber onde estão os desaparecidos.

Na Comissão da Verdade ele teve a oportunidade de revelar todos esses dados, mas ficou calado, só disse ‘não’, ‘não’ e ‘não’. A morte (de Ustra) não frustra com relação ao fato de não ter sido julgado, mas porque ele se foi e não temos a localização dos corpos da repressão.”